Nascido
sob a religião católica, mas
educado num país protestante, os atos de intolerância que por
isso teve de suportar, no tocante a essa circunstância, cedo o
levaram a conceber a idéia de uma reforma religiosa,
na qual trabalhou em silêncio durante longos anos com o intuito
de alcançar a unificação das crenças. Faltava-lhe, porém, o
elemento indispensável à solução desse grande problema
O Espiritismo veio, a seu tempo, imprimir-lhe especial direção
aos trabalhos.
Concluídos
seus estudos, voltou para a França. Conhecendo a fundo
a língua alemã, traduzia para a Alemanha
diferentes obras de educação
e de moral e, o que é muito característico,
as obras de Fénelon, que o tinham seduzido de modo particular.
Era
membro de várias sociedades sábias, entre outras,
da Academia Real de Arras, que, em o concurso de 1831, lhe premiou
uma notável memória sobre a seguinte questão:
Qual o sistema de estudos mais de harmonia com as necessidades
da época?
De
1835 a 1840, fundou, em sua casa, à rua de Sèvres,
cursos gratuitos de Química, Física, Anatomia comparada,
Astronomia, etc., empresa digna de encômios em todos os
tempos, mas, sobretudo, numa época em que só um
número muito reduzido de inteligências ousava enveredar
por esse caminho.
Preocupado
sempre com o tornar atraentes e interessantes os sistemas de educação,
inventou, ao mesmo tempo, um método engenhoso de ensinar
a contar e um quadro mnemônico da História de França,
tendo por objetivo fixar na memória as datas dos acontecimentos
de maior relevo e as descobertas que iluminaram cada reinado.
Entre
as suas numerosas obras de educação, citaremos as
seguintes: Plano proposto para melhoramento da Instrução
pública (1828); Curso prático e
teórico de Aritmética, segundo o método Pestalozzi,
para uso dos professores e das mães de família (1824);
Gramática francesa clássica (1831);
Manual dos exames para os títulos de capacidade; Soluções
racionais das questões e problemas de Aritmética
e de Geometria (1846); Catecismo gramatical da
língua francesa (1848); Programa dos cursos
usuais de Química, Física, Astronomia, Fisiologia,
que ele professava no Liceu Polimático; Ditados normais
dos exames da Municipalidade e da Sorbona, seguidos de Ditados
especiais sobre as dificuldades ortográficas (1849),
obra muito apreciada na época do seu aparecimento e da
qual ainda recentemente eram tiradas novas edições.
Antes
que o Espiritismo lhe popularizasse o pseudônimo de Allan
Kardec, já ele se ilustrara, como se vê,
por meio de trabalhos de natureza muito diferente, porém
tendo todos, como objetivo, esclarecer as massas e prendê-las
melhor às respectivas famílias e países.
Pelo
ano de 1855, posta em foco a questão das
manifestações dos Espíritos, Allan
Kardec se entregou a observações perseverantes
sobre esse fenômeno, cogitando principalmente de lhe deduzir
as conseqüências filosóficas. Entreviu, desde
logo, o princípio de novas leis naturais: as que regem
as relações entre o mundo visível
e o mundo invisível. Reconheceu, na ação deste último, uma das
forças da Natureza, cujo conhecimento haveria de lançar
luz sobre uma imensidade de problemas tidos por insolúveis,
e lhe compreendeu o alcance, do ponto de vista religioso.
Suas
obras principais sobre esta matéria são: O
Livro dos Espíritos, referente à parte
filosófica, e cuja primeira edição apareceu
a 18 de abril de 1857; O Livro dos Médiuns,
relativo à parte experimental e científica (janeiro
de 1861); O Evangelho segundo o Espiritismo,
concernente à parte moral (abril de 1864); O Céu
e o Inferno, ou A justiça de Deus segundo o Espiritismo
(agosto de 1865); A Gênese, os Milagres
e as Predições (janeiro de 1868); A Revista
Espírita, jornal de estudos psicológicos,
periódico mensal começado a 1º de janeiro de
1858. Fundou em Paris, a 1º de abril de
1858, a primeira Sociedade espírita regularmente constituída,
sob a denominação de Sociedade Parisiense
de Estudos Espíritas, cujo fim exclusivo era o
estudo de quanto possa contribuir para o progresso da nova ciência.
Allan Kardec se defendeu, com inteiro fundamento,
de coisa alguma haver escrito debaixo da influência de idéias
preconcebidas ou sistemáticas. Homem de caráter
frio e calmo, observou os fatos e de suas observações
deduziu as leis que os regem. Foi o primeiro a apresentar a teoria
relativa a tais fatos e a formar com eles um corpo de doutrina,
metódico e regular.
Demonstrando
que os fatos erroneamente qualificados de sobrenaturais
se acham submetidos a leis, ele os incluiu na ordem dos fenômenos
da Natureza, destruindo assim o último refúgio do
maravilhoso e um dos elementos da superstição.
Durante
os primeiros anos em que se tratou de fenômenos espíritas,
estes constituíram antes objeto de curiosidade, do que
de meditações sérias. O Livro dos
Espíritos fez que o assunto fosse considerado
sob aspecto muito diverso. Abandonaram-se as mesas girantes,
que tinham sido apenas um prelúdio, e começou-se
a atentar na doutrina, que abrange todas as questões de
interesse para a Humanidade.
Data
do aparecimento de O Livro dos Espíritos
a fundação de Espiritismo que, até então,
só contara com elementos esparsos, sem coordenação,
e cujo alcance nem toda gente pudera apreender. A partir daquele
momento, a doutrina prendeu a atenção de homens
sérios e tomou rápido desenvolvimento. Em poucos
anos, aquelas idéias conquistaram numerosos aderentes em
todas as camadas sociais e em todos os países. Esse êxito
sem precedentes decorreu sem dúvida da simpatia que tais
idéias despertaram, mas também é devido,
em grande parte, à clareza com que foram expostas e que
é um dos característicos dos escritos de Allan
Kardec.
Evitando
as fórmulas abstratas da Metafísica, ele soube fazer
que todos o lessem sem fadiga, condição essencial
à vulgarização de uma idéia. Sobre
todos os pontos controversos, sua argumentação,
de cerrada lógica, poucas ensanchas oferece à refutação
e predispõe à convicção. As provas
materiais que o Espiritismo apresenta da existência da alma
e da vida futura tendem a destruir as idéias materialistas
e panteístas. Um dos princípios mais fecundos dessa
doutrina e que deriva do precedente é o da pluralidade
das existências, já entrevisto por uma multidão
de filósofos antigos e modernos e, nestes últimos
tempos, por João Reynaud, Carlos
Fourier, Eugênio Sue e outros.
Conservara-se, todavia, em estado de hipótese e de sistema,
enquanto o Espiritismo lhe demonstrara a realidade e prova que
nesse princípio reside um dos atributos essenciais da Humanidade.
Dele promana a explicação de todas as aparentes
anomalias da vida humana, de todas as desigualdades intelectuais,
morais e sociais, facultando ao homem saber donde vem, para onde
vai, para que fim se acha na Terra e por que aí sofre.
As
idéias inatas se explicam pelos conhecimentos adquiridos
nas vidas anteriores; a marcha dos povos e da
Humanidade, pela ação dos homens dos tempos idos
e que revivem, depois de terem progredido; as simpatias e antipatias,
pela natureza das relações anteriores. Essas relações,
que religam a grande família humana de todas as épocas,
dão por base, aos grandes princípios de fraternidade,
de igualdade, de liberdade e de solidariedade universal, as próprias
leis da Natureza e não mais uma simples teoria.
Em
vez do postulado: Fora da Igreja não há
salvação, que alimenta a separação
e a animosidade entre as diferentes seitas religiosas e que há
feito correr tanto sangue, o Espiritismo tem como divisa: Fora
da Caridade não há salvação,
isto é, a igualdade entre os homens perante Deus, a tolerância,
a liberdade de consciência e a benevolência mútua.
Em
vez da fé cega, que anula a liberdade de pensar, ele diz:
Não há fé inabalável, senão
a que pode encarar face a face a razão, em todas as épocas
da Humanidade. A fé, uma base se faz necessária
e essa base é a inteligência perfeita daquilo em
que se tem de crer. Para crer, não basta ver, é
preciso, sobretudo, compreender. A fé cega já
não é para este século. É precisamente
ao dogma da fé cega que se deve o ser hoje tão grande
o número de incrédulos, porque ela quer impor-se
e exige a abolição de uma das mais preciosas faculdades
do homem: o raciocínio e o livre-arbítrio.
Trabalhador
infatigável, sempre o primeiro a tomar da obra e o último
a deixá-la, Allan Kardec sucumbiu, a 31
de março de 1869, quando se preparava
para uma mudança de local, imposta pela extensão
considerável de suas múltiplas ocupações.
Diversas obras que ele estava quase a terminar, ou que aguardavam
oportunidade para vir a lume, demonstrarão um dia, ainda
mais, a extensão e o poder das suas concepções.
Morreu
conforme viveu: trabalhando. Sofria, desde longos anos, de uma
enfermidade do coração, que só podia ser
combatida por meio do repouso intelectual e pequena atividade
material. Consagrado, porém, todo inteiro à sua
obra, recusava-se a tudo o que pudesse absorver um só que
fosse de seus instantes, à custa das suas ocupações
prediletas. Deu-se com ele o que se dá com todas as almas
de forte têmpera: a lâmina gastou a bainha.
O corpo
se lhe entorpecia e se recusava aos serviços que o Espírito
lhe reclamava, enquanto este último, cada vez mais vivo,
mais enérgico, mais fecundo, ia sempre alargando o círculo
de sua atividade.
Nessa
luta desigual não podia a matéria resistir eternamente.
Acabou sendo vencida: rompeu-se o aneurisma e
Allan Kardec caiu fulminado. Um homem houve de
menos na Terra; mas, um grande nome tomava lugar entre os que
ilustraram este século; um grande Espírito fora
retemperar-se no Infinito, onde todos os que ele consolara e esclarecera
lhe aguardavam impacientemente a volta!
A
morte, dizia, faz pouco tempo, redobra os seus golpes nas fileiras
ilustres!... A quem virá ela agora libertar?
Ele
foi, como tantos outros, recobrar-se no Espaço, procurar
elementos novos para restaurar o seu organismo gasto por um vida
de incessantes labores. Partiu com os que serão os fanais
da nova geração, para voltar em breve com eles a
continuar e acabar a obra deixada em dedicadas mãos.
O homem
já aqui não está; a alma, porém, permanecerá
entre nós. Será um protetor seguro, uma luz a mais,
um trabalhador incansável que as falanges do Espaço
conquistaram. Como na Terra, sem ferir a quem quer que seja, ele
fará que cada um lhe ouça os conselhos oportunos;
abrandará o zelo prematuro dos ardorosos, amparará
os sinceros e os desinteressados e estimulará os mornos.
Vê agora e sabe tudo o que ainda há pouco previa!
Já não está sujeito às incertezas,
nem aos desfalecimentos e nos fará partilhar da sua convicção,
fazendo-nos tocar com o dedo a meta, apontando-nos o caminho,
naquela linguagem clara, precisa, que o tornou aureolado nos anais
literários.
Já
não existe o homem, repetimo-lo. Entretanto, Allan
Kardec é imortal e a sua memória, seus
trabalhos, seu Espírito estarão sempre com os que
empunharem forte e vigorosamente o estandarte que ele soube sempre
fazer respeitado.
Uma
individualidade pujante constituiu a obra. Era o guia e o fanal
de todos. Na Terra, a obra subsistirá o obreiro. Os crentes
não se congregarão em torno de Allan Kardec;
congregar-se-ão em torno do Espiritismo,
tal como ele o estruturou e, com os seus conselhos, sua influência,
avançaremos, a passos firmes, para as fases ditosas prometidas
à Humanidade regenerada.
"Obras
Póstumas" de Allan Kardec